segunda-feira, 19 de abril de 2010

Reportagem sobre a Carta de Pero Vaz de Caminha

Esperança de ouro e prata é encontrada pela frota de Capitão Cabral em véspera de Páscoa.

Terra, gente, fauna, flora e um novo mundo ainda muito pouco explorado.

O escrivão da Armada de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha enviou ao rei D. Manuel de Portugal esta semana uma carta relatando a descoberta de uma terra de grandes extensões que poderá mudar o destino de Portugal. Entregue às mãos da realeza por Gaspar de Lemos, comandante do navio de mantimentos da frota, a carta é datada de primeiro de Maio deste ano contendo informações bastante detalhadas sobre as primeiras impressões e principalmente as expectativas que o Reino poderá manter acerca deste novo mundo.
A partida do porto de Belém foi a nove de março com o primeiro contato visual em vinte e um de abril e culminando no desembarque â terra nova no dia vinte e três deste dito mês. Neste mesmo dia, após já haverem constatado a presença de grande reserva de água potável de um rio e uma vasta extensão de árvores, os capitães da frota se depararam com nativos que, surpreendentemente tinham seus corpos completamente nus, cobertos apenas por tinta preta ou vermelha, além de estarem portando objetos como arcos e flechas.

A população local
Segundo relatos contidos na carta de Caminha, homens e mulheres locais são de pele parda, um tanto avermelhada, e com boas feições. Providos de grande inocência e sem nenhum pudor ou vergonha seus corpos bem afeitados e desenhados são deixados totalmente a amostra. Os cabelos dos homens eram bem curtos e raspados bem acima das orelhas, ao contrário dos femininos, que além de lisos eram bastante longos e escuros.
Como se o fato de estarem desnudos não fosse o bastante para a estranheza, estes homens apresentam furos de alguns diâmetros em seus lábios inferiores o que de nenhuma forma atrapalhavam seus processos de fala ou alimentação. A ausência de sobrancelhas e cílios também caracterizava a tão peculiar fisionomia destes indivíduos.
Os habitantes dessa terra, por sua interminável inocência trocavam seus pertences por qualquer coisa que se lhes ofereciam como gesto de curiosidade, confiança e receptividade. Cordões, pulseiras e chapéus se tornaram objetos de interação entre estes e os membros da tripulação.
Aparentemente os primeiros contatos tiveram resultados positivos e de cooperação, onde ambas as partes interagiram para que a convivência pudesse ser amigável.

Ouro, prata ou apenas esperança?
Conta-se que ao se deparar com o capitão da expedição Cristóvão Colombo que usava um colar de ouro, um destes receptivos homens que se aproximara do pequeno grupo de membros da tripulação em terra firme apontou em direção ao seu pescoço e em seguida em direção a terra, dando a entender que existiria a presença do mineral naquele lugar. Claramente para eles, o ouro não deve obter o mesmo valor que tem para o mundo civilizado, tendo em vista a inocência com a qual a existência deste fora apontada diante de estranhos.
Tendo em vista tal relato sobre a possível presença deste mineral tão valioso em tempos atuais, pode-se dizer que o Rei D. Manuel obteve mais do que uma motivação para prosseguir com seus objetivos de expansão e conquista de novas terras.
Nos primeiros dias de estadia na chamada por Cabral Terra de Vera Cruz, a rotina de parte da tripulação era basicamente a busca por conhecer mais os costumes dos nativos, suas condições de moradia e sustento e as probabilidades de torná-la uma possível fonte abastecedora de Portugal, para principalmente estabelecer um elo entre ambos.

No último domingo de Páscoa foi realizada a primeira missa por frei Henrique sendo esta acompanhada por todos os tripulantes que, segundo Caminha, conservavam o costumeiro prazer e devoção cristãos.
Em meio às novidades trazidas por cada descoberta, os capitães iam se dando conta do quão inofensivos e pouco providos de inteligência eram aqueles homens, apesar de não aparentarem ter religião ou devoção a algum Deus. Caminha especula sobre este fato ao sugerir que, por conta desta premissa, os portugueses poderão proporcionar a salvação de suas almas com o auxílio do Rei e da Igreja.
Estima-se que haja lá mais de trezentos nativos, tendo em vista que a extensão de terra ainda é desconhecida. Porém não há sinais de que mais alguma expedição tenha passado por aquele lugar.
Afonso Ribeiro e Diogo Dias, ordenados pelo capitão a passarem uma noite na companhia dos nativos, constataram que os indivíduos que habitavam naquela vila de aproximadamente nove ou dez casas, descreveram estas últimas como compridas, construídas de madeiras e tábuas e cobertas com palhas. Sua arquitetura é a de um espaço único e simples, sem divisões de cômodos. Havia apenas duas portas, uma em cada extremidade de cada casa. Em cada uma delas se agrupavam para dormir cerca de trinta ou quarenta pessoas.
Alimentos como inhame e sementes são consumidos e armazenados em escala razoável. Apesar de aparentarem serem pouco providos de inteligência, estes homens foram capazes de desenvolver instrumentos que os auxiliam de maneira satisfatória em seus afazeres diários.
Em meio à diversidade de tão ricas fauna e flora nunca antes vista foi que a tripulação passou seus primeiros dias na Terra de Vera Cruz.
Mesmo após alguns dias de choque cultural Vaz de Caminha relata por duas vezes que ainda pairava um receio sobre as mentes dos capitães e do restante da tripulação com relação aos nativos, muito mais do que o percebido em relação aos homens de pele parda.
Por fim, em primeiro de Maio, data da partida da frota e redação da carta, foi rezada a última missa, desta vez acompanhada pelos nativos que, gesto a gesto, imitavam os rituais cristãos seguidos pela tripulação.
Este último ato de confraternização entre tripulação e nativos fez com que Caminha se reportasse ao rei de maneira a fazê-lo crer que o cristianismo seria muito bem aceito por aqueles que ali viviam.
Ainda que tenham saído daquela terra sem a certeza de haver ouro ou prata, objetos de grande interesse e cobiça, souberam ao menos que suas condições de cultivo da terra são extremamente favoráveis assim como os recursos naturais disponíveis.
Ao final da carta, Caminha solicita ao Rei que liberte seu genro, preso por assalto e agressão na Ilha de São Tomé.
Estas são apenas algumas informações que constam na extensa e bastante detalhada carta escrita por Vaz de Caminha ao Rei D. Manuel para dar-lhe conhecimento de uma descoberta que possivelmente mudará de forma significativa a história e a vida de muitos portugueses neste início de século.

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